DO OUTRO LADO

8.4.05

das putas de estrada

(com a especial colaboração de P. Quenita)

quando eu era pequena, não sei de que idade, uns 7 ou 8 anos, perguntei à minha mãe o que é que aquelas senhoras estavam ali a fazer sentadas à beira da estrada nos banquinhos do campismo (aqueles bancos dobráveis, com o assento em nylon rígido e de riscas quase sempre amarelas). Parece que a minha mãe não me respondeu.
Aos poucos, com o que a idade e as leituras proibidas me ensinaram, descobri que aquelas senhoras eram putas. Mas não fazia a mínima ideia do que era ser puta.

acabei por vir a saber, muitos anos mais tarde, que a ingenuidade acompanhou-me por tempos indefinidos...

a estrada não mudou em todos estes anos. Nem sei mesmo se foi re-asfaltada. Sai-se da Figueira da Foz em direcção a Leiria e ali, naquele nicho das fábricas de pasta de papel, ei-las. Agora em carrinhas pimponas, de cortinas nas janelas, lá estão as senhoras putas sentadas noutros assentos, estes estofados, e num poiso muito mais alto.

do que vejo em passagem rápida e para dentro das Hyaces, não me apercebo das indumentárias. Das de antigamente recordo joelhos gordos à mostra, camisolas justas e cabelos desgrenhados. Mas é uma imagem de há tantos anos que se calhar já nem é bem real.

páram camionetas, carros, motoretas. Têm mercado, as senhoras. Elucida-me a P. Quenita de que nisto, há segmentos.
- Segmentos? - Pergunto
- Sim! Segmentos de mercado.... A puta da zona industrial é assim uma puta diária. Mas a puta da longa distância, a da estrada para o Algarve, por exemplo, isso já é uma gaja só para de vez em quando. E o camionista de longo curso não é propriamente o gajo que sai da fábrica na FAMEL e pára ali cem metros à frente para se lambuzar na gaja do costume...
- És capaz de ter razão... (Bolas! nunca tinha pensado nisto desta maneira).
- Noutro dia - acrescentou - passámos por uma que estava de muletas. Vê lá bem, de muletas!

adenda - antes as putas de estrada do que os filhos da puta.