Não comer o gelado
é como não ter ninguém a quem dar a mão:
Nas quartas-feiras de Julho, mês de praia de um a trinta e um, os meninos levam dinheiro para um gelado.
- É o dia do gelado, mãe! Levamos um euro e escolhemos o que quisermos!
Esqueci-me. Esqueci-me de dar a moeda à miúda. Mas bolas, estes dias são complicados - acordar mais cedo para as empastar de creme, preparar mochilas e lanches e despachá-las a horas ou arriscam-se a perder o transporte.
Ao fim do dia:
- Olha mãe, hoje foi dia de gelado e eu não comi. Não me puseste lá o dinheiro. Não tinhas mãe?
- Ai! Que horror, esqueci-me! E não comeste mesmo? Ninguém te emprestou?
- Não…
(- Nem a educadora? – pensei)
- Desculpa: Vamos já pôr lá a moeda e comes o gelado quando te apetecer.
- Agora só na quarta-feira
- Está bem, mas já lá fica. E amanhã compramos gelados para todos para a sobremesa, boa?
- Boa! – e deu-me um abraço
Há 48 horas que definho com isto. Uma porcaria de um euro que me esqueci de pôr na mochila e a miúda a ver os outros a lambuzarem-se com os gelados.
E ela, do alto de seis anos de gente, a pensar que eu não lhe tinha dado o dinheiro porque não tinha, porque me ouve pregar todos os dias que o dinheiro não chega para tudo e que se querem bolicaos não levam pães de leite e barbies só no natal.
(sem baby-blogue e porque há coisas que têm que ser escritas, fica aqui mesmo)
7 Comments:
Bolas. agora fiquei quase a chorar com a tua história. A pensar que são tão bestiais,eles, numa enorme compreensão de alguns sacrifícios que fazemos e lhes dizemos (nesse caso a tua pequena a pensar que era isso)...meu Deus, são tão grandes (DE GRANDEZA DE ALMA). Beijinho.
Olha (que porra, estou mesmo a sentir-me mal por estar nos teus comentários a falar nisso só porque tenho a birra que não quero comentários no meu lado), não pensaste nisso (pensaste claro)? que a educadora poderia ter emprestado, que poderia ter arranjado uma mão para dar...mas claro que não, são muitos, há muitas coisas para organizarem, é uma trabalheira doida levar a miudagem toda à praia. Bolas.
Claro que pense e achei que educadora lhe devia ter emprestado o dinheiro. Mas enfim, se calhar estas coisas também os ajudam a crescer, sei lá... não consigo (ainda) ter a noção se estas limitações são boas ou más para os miúdos.
Eu, quando deixo os comentários abertos, é mesmo para dar espaço a desabafos como os teus, Catarina. Sempre bem-vindos.
Não tenho qualquer dúvida, no caso do dinheiro, deveria mesmo ter emprestado. (mas admito que pudesse pensar que se a criança não levava, era porque a mãe não queria, por qualquer razão).
Ajuda-os a crescer? Não sei, não sei, são tão pequenos. Têm tempo, o resto da vida para crescer. (sou tão pouco isenta.)
Obrigada, Rita.
Lá andei eu uns 15 anos para trás e volta e meia eles lembram-se. Um ano insisti que eles tinham de ir á praia com os miudos da igreja. Lá íam os dois sempre de mão dada e chpéu amarelo na cabeça. Á tardinha chegavam os dois sempre de mão dada com um olhar tristinho e perguntavam. Oh mãe ainda falta muito para acabar a praia? queremos ficar em casa com a avó. Não queremos peixe com maionese porque vomitamos todos os dias. Ainda hoje não podem ouvir falar em maionese e eu nunca mais os mandei para lado nenhum sem primeiro sondar a opinião deles. Quanto ao dinheiro para os gelados tb era assim e um dia ou dois não comeram porque me esqueci de entregar á monitora pela manhã. Um beijinho e boas férias para as garotas. Há coisas na vida que parecem tão simples mas podem marcar. Aos meus marcou até hoje que já são adultos e ainda falam nisso.
Pois... nem sei como foram capazes de ver todas as crianças a comer o gelado e não darem a porcaria de 1€ à tua para que não se sentisse mal. Sim, porque com 6 anitos ela ja percebe tudo mtoooo bem,,,, mas demnonstra muito do caracter dela pensar que nao tinha o dinheiro porque a mae nao tinha para dar do que a mae nao qerer dar :)
Susana Valfreixo
A educadora da tua filha é uma vaca sádica. Desculpa.
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